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Cachoeira de Emas


O rio Mogi-Guaçu em Cachoeira de Emas: água barrenta cor de terra, corredeiras rasas sobre pedra e mata densa na margem oposta.

Uma cidade batizada com o som que os peixes fazem ao subir o rio, e uma usina de energia construída para não interromper esse som.

Os primeiros habitantes da região falavam tupi e deram ao lugar um nome que descreve um som: pirá, peixe, e sunung, fazer barulho. Peixes barulhentos. Pirassununga.

O nome não é metáfora. Todo fim de ano, quando a temperatura e o volume da água chegam ao ponto certo, os cardumes — sobretudo os curimbatás — sobem o Mogi-Guaçu para desovar. É a piracema. E no esforço de nadar contra a correnteza, subindo a cachoeira, os peixes emitem um ronco que se ouve da margem. Um rio inteiro rosnando no escuro.

Cachoeira de Emas é o distrito construído em volta desse fenômeno, nas duas margens do rio, a cerca de nove quilômetros do centro de Pirassununga. O 8 de dezembro, Dia da Piracema, é feriado municipal.

Uma usina que abriu passagem para os peixes

Em 1918, a SA Central Elétrica Rio Claro instalou ali uma unidade geradora de energia elétrica, com máquinas americanas. A barragem foi uma das poucas do Brasil construída com escadarias para os peixes — degraus de água que permitiam aos cardumes continuar subindo o rio na época da desova.

Vale demorar um segundo nisso. Há mais de cem anos, num distrito do interior paulista, alguém desenhou uma usina de energia e fez a conta do que ela mataria se fechasse o caminho. E resolveu não fechar.

Não é um detalhe pitoresco. É uma decisão de engenharia sobre risco aceitável, tomada num tempo em que quase ninguém fazia essa pergunta — e num lugar cujo nome inteiro depende de os peixes conseguirem passar.

O primeiro laboratório de peixes do país

Em 1939, junto à cachoeira, começou a funcionar a primeira Estação Experimental de Caça e Pesca do Brasil, depois rebatizada como Estação Experimental de Biologia e Piscicultura. O que era um posto de pesquisa tornou-se, com o tempo, o centro nacional dedicado à conservação de peixes continentais, hoje instalado na Vila Santa Fé, dentro do próprio distrito.

De modo que este trecho de rio acumula, num raio de poucos quilômetros, três coisas que raramente convivem: um fenômeno natural que dá nome à cidade, uma usina que se dobrou a ele, e um laboratório montado para entendê-lo.

O rio hoje

Fora da piracema, Cachoeira de Emas é um lugar de fim de semana. Restaurantes de peixe à beira d'água, barqueiros oferecendo passeios, ranchos de pesca, motociclistas parando na SP-201. No último sábado de janeiro sai o passeio de boias — dezessete quilômetros rio abaixo, até Porto Ferreira, com gente descendo em boia, jangada e barco.

É um lugar onde as famílias almoçam de frente para a água e as crianças crescem sabendo o nome dos peixes.

Onde
Distrito de Pirassununga, São Paulo, Brasil
Rio
Mogi-Guaçu, nas duas margens
Coordenadas
21°56′ S · 47°22′ O
Nome
Do tupi pirá (peixe) + sunung (fazer barulho)
Piracema
8 de dezembro — feriado municipal
Usina antiga
1918, com escadarias para os peixes
No livro

Helena Marques cresceu aqui. É deste barranco de terra vermelha, de frente para as corredeiras, que vem a primeira coisa que ela aprendeu sobre o Sol — e a última que ela vai lembrar.

Num sábado de eclipse, o pai dela, agricultor, furou um alfinete na tampa de uma caixa de sapato e ensinou a menina a olhar para a estrela sem ficar cega. A gente nunca olha pra ele direto. A gente olha pro que ele deixa.

Três semanas depois ele morreu. Décadas depois, ela faz exatamente a mesma coisa, com instrumentos maiores, no topo de um vulcão do outro lado do mundo.

Fontes de referência: Prefeitura Municipal de Pirassununga; Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Mogi Guaçu; Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Os personagens e os acontecimentos do livro são ficção.


Um e-mail quando o livro sair.

Enquanto isso, acesse o relatório do Consórcio Helios. São dois arquivos — um deles não deveria estar lá.