Engenheiro químico, mais de vinte e cinco anos no setor de energia. O Próximo Sol é seu primeiro livro.
A ideia me ocorreu no trânsito, voltando para casa depois de um jogo de squash. Foi numa quinta-feira. Na segunda seguinte, eu entrava de férias.
Lembro dessa sequência com uma precisão que não costumo ter para coisas mais importantes. Cheguei em casa e anotei, com medo de perder. Não era uma cena, nem um personagem — era uma pergunta que tinha finalmente encontrado a forma de uma história.
A pergunta era antiga. Eu era criança quando comecei a ler sobre as pirâmides do Egito, sobre as teorias de que alguém teria vindo de fora para construí-las. Passei anos assistindo Discovery Channel e History Channel, alimentando aquele tipo de curiosidade que se satisfaz com qualquer coisa que prometa que o mundo é maior do que parece. Não acredito mais em quase nada daquilo. Mas fiquei com a pergunta que estava por baixo: se o universo é tão grande, por que ninguém aparece?
Depois vieram as respostas mais adultas. O paradoxo de Fermi. O Grande Filtro — a ideia de que existe alguma barreira que quase nenhuma civilização atravessa. E, em paralelo, o assunto que me ocupa profissionalmente há mais de vinte e cinco anos: a corrida por fontes energéticas alternativas, o esgotamento dos combustíveis fósseis, o aquecimento global, a demanda que não para de crescer. Duas curiosidades que eu tratava como separadas até perceber que eram a mesma: inteligência custa energia, e energia acaba.
Talvez o Filtro não esteja no futuro. Talvez a gente já esteja dentro dele.
Foi essa soma que me apaixonou pela história — não a ficção dela, a plausibilidade. Não é um livro sobre um perigo imaginário. É sobre uma armadilha que me parece razoável, construída com física que existe, por pessoas que estão fazendo exatamente o que pessoas responsáveis fariam.
Foram vinte dias de férias. Saiu a estrutura inteira — a lista de capítulos, a sequência, o que precisava acontecer e em que ordem — e boa parte do livro junto. Não escrevi o dia inteiro; escrevi em cada intervalo que apareceu, e apareceram muitos. Depois foram fins de semana, ao longo de meses, sempre voltando ao mesmo texto para lapidar. Não larguei o emprego, não me tranquei em cabana nenhuma. O livro foi feito nas horas que sobravam, que é como quase todos os primeiros livros são feitos.
Em algum momento entendi que escrever era só a metade. Descobri que dava para trabalhar com profissionais de verdade — edição de desenvolvimento, preparação de texto, tradução, capa — e passei a estudar como se lança um livro com qualidade dentro de um orçamento que cabe na vida de uma pessoa comum. É isso que estou fazendo agora. Não tenho editora. Tenho um processo, e o levo a sério.
Também trabalho com inteligência artificial, e prefiro dizer isso a ser perguntado. Ela me acompanha em quase todas as etapas: organizar cronograma, comparar orçamentos, redigir e-mails em inglês para prestadores, montar as páginas deste site, desenhar símbolos, e conversar longamente sobre decisões até eu entender o que penso sobre elas. É mais ou menos a interlocução que um autor de catálogo tem com sua editora, e que um estreante independente não tem com ninguém.
O que ela não faz é decidir. Cada escolha sobre esta história é minha, e o que pedia mão humana foi para mãos humanas: a edição de desenvolvimento com uma editora experiente; a tradução para o inglês com uma tradutora literária premiada, de língua materna inglesa; a capa com um ilustrador. Eu queria um livro bem-feito, e livro bem-feito ainda se faz com gente.
Sobre o que espero do leitor, tenho uma ambição só, e ela é modesta e difícil ao mesmo tempo:
Que dê para contar esta história como se fosse verdade — sem apelação, sem truque, sem ficar vermelho de vergonha.
Se você fechar o livro e pensar isso podia acontecer, foi por isso que eu escrevi.
Escrevo de volta. Se o livro te fez pensar em alguma coisa, quero saber.